quarta-feira, outubro 29, 2008

Liberdade Condicional

Há uns anos atrás, fiquei esmagada pelo murro no estômago que acho que Dogville é. Vai continuar a ser por muitos anos porque as questões em torno das quais se debruça são as das virtudes e defeitos humanos. Ainda hoje é, para mim, um daqueles filmes para ficar.

Hoje vi Manderlay, que ainda não tinha visto. Ainda que não tenha tido o mesmo impacto sobre mim que teve Dogville e ainda que ache que tecnicamente não é tão bom (sobretudo, devido à actriz principal), é um outro murro no estômago. Lars von Trier é um homem perverso mas incrivelmente lúcido - no meio de algo a que muitos poderão apelidar de loucura.

Quando Grace chega a Manderlay, vem de uma caminhada de desilusão, atravessando uma América traçada a régua e esquadro, a preto e branco, linhas traçadas preto no branco.

A grande questão de fundo é a do racismo. Uma comunidade de escravos negros habita Manderlay sob a suposta mão de ferro da Madame. Lentamente, percebemos quanto daquilo que vemos é fruto da nossa vontade de ver e, mais que tudo, da vontade de Grace em ver aquilo que deseja ardentemente que seja. Também aquilo que os outros constroem e ocultam. É desse jogo que se trata, novamente, embora sob moldes distintos dos de Dogville.

É um filme oroboro, se é que assim se pode chamar. De uma comunidade escrava, a que Grace começa por pedir perdão, se molda a desejada aurora de uma nova Manderlay. Uma nova era. Com revelações desagradáveis, sobretudo as que dizem respeito ao modo como os americanos brancos lidaram com os negros ao longo dos tempos, até aos dias de hoje. A perspectiva de Trier não é animadora mas não deixa de ser parte da realidade. Uma forte e frontal crítica que nos coloca frente a frente com a lei de Talião, com a introdução do voto, com a ilusão, com a existência de traços de personalidade alheios à raça.

Little Little I Can Give.... assim se pode ler no frontispício que anuncia a entrada da mansão da Madame. E Manderlay está escrita na pedra, como um mandamento, tal como a anterior inscrição. Há coisas que não podem ser apagadas e que dificilmente são destruídas, mesmo quando tudo em volta se desmorona - mesmo que sejam apenas as ilusões criadas pelo desejo de uma liberdade que é pouco mais que um ideal. A realidade é que nem sempre estamos preparados para a liberdade - todos nós - e torna-se mais cómodo manter um certo enquadramento da realidade, uma certa desresponsabilização.

7 comentários:

FccNunes disse...

Tenho de admitir a minha ignorância em relação a este filme...Acho que nunca me passou pelas mãos ou, tão pouco, pelos ouvidos. Também admito que não sou um seguir acérrimo de von Trier..
Contudo, e por aquilo que deixaste aqui, parece-me interessante. Gosto de filmes com visões negras, pois o futuro não é cor-de-rosa. Gosto de pedradas no charco da monotonia da suposta felicidade futura, do tapar o sol com a peneira. Gosto de me sentir repugnado com um filme (e não repugnado num sentido literal, físico). Este parece ter algumas dessas coisas... Ficou registado, directora!

underadio disse...

Humhum. Já vi o filme e tal como ctg, este não ressoou da mesma forma, com o mesmo impacto, como dizes, do Dogville mas...esqueci-me do fim do filme. E qd te escrevo isto é mesmo assim, não sei, não me recordo. Não o estou a fazer de propósito, juro. Vou confessar-te uma coisa eu sei quase sempre o final dos filmes(por vezes mesmo antes de os ver) mas depois esqueço-os e detesto. Porque eu não sou de me esquecer, antes pelo contrário. Bom, acho q vou ter de alugar o filme outra vez.
[Algo q não tem nada a ver mas vai daí. Antes de ontem, tropecei no nome de Ken Russell pq andava à procura de uma serie britânica dos anos 80, q se passava dt a segunda guerra mundial e pesquisei por "rainbow", tendo ido parar ao filme "The rainbow" dele. Lembro-me de uma vez ter apanhado o "The Devils" num ecrã enorme, num bar, de música ao vivo q já não existe, lá na minha terrinha, o "Domus".Mas fiquei curiosa por ver outros dele]
Ainda a propósito deste filme. Esta actriz, de facto, não é a Nicole Kidman mas este filme ainda precisava de "simplificar-se" mais q o anterior. Tu entendes-me. Ah pois, agora por causa do teu post sobre a "Ajuda" lembrei-me da velha do filme e do q aconteceu. E lembrei-me de outras coisas mas agora tb não me posso lembrar muito pq tenho algo para acabar de ler.

Isobel disse...

Fcc, acho que não te arrependes. eu não gosto particularmente do Lars mas confesso que tanto o Dogville como este Manderlay me encheram muito bem as medidas.
Também gosto de ver filmes que tenham um grande lado negro looool E este tem-no em grande quantidade... quando as aparências se desmoronam, quando as máscaras caem, a realidade é bem diferente daquilo que pensávamos.
Andas revoltado, Lipinhho? :D looool
(brincadeirinha)

Isobel disse...

Under, o fim é essencial looool bem, nem sempre, mas neste caso sim :D
Vou investigar o Ken Russell, se tu aconselhas :)
A Bryce Dallas é uma nódoa e, se calhar, sou fuzilada por dizer isto mas não a suporto. Mas compreendo que talvez o Lars quisesse emprestar à personagem de Grace um lado mais soft. Eu não optaria por esse caminho mas cada realizador é um mundo e o Lars é um mundo especialmente complexo looool
Mas, sinceramente, há tanta gente que podia emprestar simplicidade a Grace e ser boa actriz. Acreditas que detestei ouvi-la chorar? Ridículo :D
A cena da velha é assustadora e demoníaca mas é por isso que gosto desta trilogia (que ainda não é mas vai ser). Ficamos frente a frente com questões monstruosas, dilemas.. coisas que normalmente não equacionamos, como a questão da democracia e da votação, de vencer a maioria.

underadio disse...

Não aconselho Cátia pq tb ando à procura. Faço um suspirado pois qd descreves o q o filme nos mostra.

"Nós desconfiamos das massas como de nós mesmos". E eu, pessoalmente, tenho umas vezes receio, outras "mais q fazer", q me dirigir ao "indivíduo". Mas acho q de uma forma ou de outra acabamos sempre por fazê-lo.

Woman Once a Bird disse...

Sou fã absoluta de Dogville. E quando vi este tive a mesma impressão; tal como tu, acho que a actriz principal não tem desenvoltura suficiente para este papel. Ainda assim, uma vez mais, soberbo argumento.

Isobel disse...

Sem dúvida, um argumento brilhante... e acho que com uma "front woman" diferente, o filme teria ganho muito em qualidade, até porque os actores de suporte são bastante bons.