quinta-feira, maio 24, 2018

O sonho em contexto adverso

Há uns tempos fui ver um filme que me impressionou muito, talvez por ser muito sincero. Não tinha curiosidade em vê-lo, acabei por faltar a um compromisso não muito promissor para o ir ver e cheguei à conclusão que devemos fazer mais vezes aquilo que nos dá na real gana. Essas escolhas que fazemos de repente e que seguem o instinto normalmente são as que nos mostram perspectivas mais coloridas da vida, pelo menos naquela que é a minha experiência. Baronesa é um filme de uma jovem realizadora brasileira, Juliana Antunes, que retrata a vida na favela do ponto de vista das mulheres e é, de facto, uma visão completamente diferente de tudo o que se tinha feito naquele contexto. Feito com mulheres reais, foi parcialmente ficcionado para dar corpo a uma história que nem sempre corresponde aos factos da vida daquelas mulheres que, por exemplo, não anseiam sair do sítio de onde vivem. Um pouco dentro do espírito dos filmes do Pedro Costa, não se sabe muito bem qual é a fronteira da ficção, qual a da realidade, apesar de, em Pedro Costa, essas fronteiras serem muito mais difusas. É um tipo de cinema que, apesar de tudo, tem por trás um enorme trabalho de socialização, ganhar confiança das pessoas para entrar em meios fechados e conseguir permissão para mostrar aquelas caras, aquelas histórias. É muito mais do que um filme, é uma experiência sociológica, antropológica mas, acima de tudo, humana, em que o realizador se torna parte do filme.
No final do IndieLisboa deste ano, Baronesa acabaria por ser o vencedor, ex-aequo com Lembro Mais dos Corvos, também de um realizador brasileiro (esse não cheguei a ver), deixo-vos neste link aquilo que escrevi sobre ele na Rua de Baixo.

O regresso de Björk à televisão, 8 anos depois

Parece coisa pouca mas a Björk já não aparecia na televisão para cantar há 8 anos. Apesar de não me identificar minimamente com o caminho que ela tem tomado em termos sonoros (nem tenho comprado os álbuns, que era coisa que fazia religiosamente), a sua actuação no Jools Holland é lindíssima. Claro que o que gostei mesmo de ouvir foi a Anchor Song, com direito a uma das partes cantada em islandês, por isso aqui fica.

segunda-feira, maio 21, 2018

A idiotice de não conseguir ouvir o outro

Hoje ressurgiu na minha mente um tema que nem sempre é um tema para mim: a questão da cor da pele. É verdade que sou branca e, segundo alguns, privilegiada só por isso e, de facto, não passei nem passo por muitos entraves que os preconceitos colocam às pessoas cuja cor da pele não é o branco ou esta cor estranha que não é bem branco mas enfim. Talvez muitas das questões que se colocam eu não as consiga ver, apesar de também eu, dentro da minha maravilhosa sociedade caucasiana, seja considerada alguém que vem de fora e que nunca se integrou verdadeiramente. Há vários níveis de se pertencer às franjas do que quer que seja e não estou a comparar sofrimentos ou quaisquer outro modo de se ser posto de lado mas a verdade é que não me sinto parte de nada disto. Adiante.

Hoje, ao navegar pelas redes sociais, dei de caras com uma notícia que estava em algumas revistas online de música e dava conta de que o Kendrick Lamar, conhecido rapper, tinha convidado uma fã para cantar uma música dele. A fã era branca e cantou a música tal e qual como ela é cantada pelo Kendrick, o que inclui muitas vezes a palavra "nigger" ou "nigga", que penso que é assim que está naquela música em questão. 

Quando a fã disse aquela palavra 3 vezes, o cantor mandou-a parar e, na minha ingenuidade, não percebi porquê e fiz um comentário em que perguntava precisamente isso ou, por outras palavras, se a letra da música não era tal e qual conforme a rapariga tinha cantado. Esta minha pergunta genuína por querer saber uma coisa que não sei fez com que fosse apelidada de idiota e privilegiada branca, até que alguém me explicou que, de facto, aquela palavra só pode ser dita pelos negros uns para os outros porque é uma palavra de protesto (horrenda forma de protestar, também pensei eu) e os brancos não estão autorizados a usá-la. A discussão que para mim era normal e tinha por intuito informar-me e aprender fez com que fosse apenas vista como uma branca estúpida, também porque não achei normal que um cantor chame ao palco uma fã só para gozar com ela só para testar se ela é meio tapada ou não.

Apercebi-me depois que, de facto, aquela palavra não pode ser usada pelos brancos porque os donos dos escravos usavam-na para chamar a sua propriedade. A realidade é que não sei uma infindável quantidade de coisas e uma delas era esta, não me desculpando com o facto de que se trata de uma especificidade linguística dos EUA e que aqui as palavras que não se podem usar são outras. De qualquer modo, continuei a não perceber porque é que se chama uma fã, seja de que cor for, para cantar com o seu ídolo e se a humilha em frente de toda a gente; não percebi porque é que naquele contexto da música, fazendo parte da letra, a fã teria de censurar a palavra apenas porque a ela, por ser branca, lhe está vedado o uso; continuo sem perceber porque é que a palavra que é horrível e traz essas memórias todas do passado e, em parte, claro, do presente daquele país ao lidar com as questões raciais ainda é usada, mesmo entre as pessoas negras.

Tentei ter este tipo de discussão tal e qual como o coloquei aqui e fui insultada por ser idiota, por não saber que uma determinada palavra está vedada a uso pelos brancos mas não pelos negros, acabei por ficar esclarecida no assunto, que era o que na verdade pretendia mas há muitas coisas que continuo a não perceber simplesmente porque na minha cabeça essa bipolaridade de mundos não faz sentido. Nos EUA, ainda é pior porque toda a gente tem uma categoria racial e um hispânico é um hispânico e não uma pessoa oriunda da América Latina. Não digo que não tenho nenhum tipo de preconceito, toda a gente tem, sem excepção, mas o meu interesse é eliminar o máximo possível dessas ideias conhecendo mais aquilo que as pessoas têm para dizer e explicar. O que se encontra na maior parte dos casos numa rede social onde estão seres humanos e onde uma conversa poderia tomar um rumo normalíssimo é uma ignorância que simplesmente não quer saber nem perceber o que se está a dizer, é o que sinto quase sempre, é como se houvesse uma barreira que não deixa perceber o outro lado mesmo que o outro lado explique claramente ao que vem. "Não, não te quero ouvir, és uma idiota branca privilegiada" e é verdade que sou branca e intrinsecamente possa ser privilegiada mas gostava de ser isso tudo juntamente com mais informação e mais entendimento do mundo em que vivo e das pessoas que o habitam.

sexta-feira, maio 04, 2018

Existir em contentamento

Nestes últimos tempos, tenho publicado aqui sobretudo o resultado daquilo que escrevo para a Rua de Baixo, sei que sou chata, e, de facto, apesar de não estar ainda a trabalhar, aquilo que tenho feito é realmente o que me faz feliz. Esta é a grande conclusão que me tem pairado na cabeça, nada do que tenho feito é uma obrigação, descobri que sou capaz de ver filmes praticamente o dia todo e depois conseguir ter discernimento para escrever um texto sobre ele (que é sempre relativo porque é a minha visão sobre um determinado assunto) e que faz sentido, concorde-se ou não com ele. 

Les Garçons Sauvages Bertrand Mandico Indie LIsboa
Para além dos visionamentos, que continuei a fazer, também tenho frequentado as sessões do IndieLisboa para fazer a cobertura do festival, o que também é subjectivo e resulta das escolhas que vou fazendo ao longo dos variados dias. Já vi coisas que gostei muito, outras não tanto assim mas a experiência tem sido um fascínio para mim no sentido em que, de facto, é um acontecimento natural e em que me sinto bem, ao contrário de algumas experiências laborais que já tive, em que, de facto, recebia um retorno em forma de dinheiro mas não recebia absolutamente mais nada, zero de satisfação pessoal. Agora sinto que estou numa posição em que poderia ficar, o que, de resto, penso que nunca me tinha acontecido até agora, portanto a vida ensina-nos sempre coisas novas se não tivermos o pensamento e a vontade estagnados. 

Assim, deixo à vossa consideração os 3 artigos mais recentes que escrevi, um sobre música, mais concretamente sobre o último álbum da americana Laura Veirs; outro sobre uma longa-metragem ficcional no IndieLisboa, o Les Garçons Sauvages; e, por último, um sobre um documentário lindíssimo, de um jovem realizador português, em que até me emocionei verdadeiramente e que se chama Bostofrio. Convido-vos a ler e fico-vos grata por estarem desse lado, este é um momento de felicidade e satisfação pessoal para mim e posso garantir-vos que nada tem a ver com estatutos ou atenção, é mesmo pela simplicidade de existir em contentamento.

Bostofrio Paulo Carneiro



quarta-feira, abril 25, 2018

A vida das estrelas

Não sou, com toda a certeza, uma apreciadora de ópera, nunca me interessei muito e até pelos grandes nomes da ópera nunca tive grande emoção a ouvir cantar. A minha opinião mudou um pouco ao ver o filme que se dedica à vida da Maria Callas, até porque a grandiosidade da cantora abarca todos os recantos da sua vida e a devoção que o realizador tem por mostrar toda a verdade sobre esses recantos é por demais evidente. 

Acima de tudo, é uma tentativa real de documentar, de registar, de falar sobre todos os assuntos de uma maneira tão exaustiva que possivelmente ninguém no seu perfeito juízo passaria 5 anos da sua vida a investigar, recolher informação e documentação e fazer a montagem de todas as imagens (só na edição passou 6 meses, portanto veja-se a loucura).

É um documentário diferente, supostamente é a própria Callas que fala na maior parte do tempo mas o processo de escolha do que passar num determinado filme ou documentário implica sempre a presença do julgamento de quem escolhe mas essa é uma questão longa e, por isso, só posso dizer que, de facto, Maria by Callas parece muito próximo da vida real da cantora, emociona, mostra aspectos e imagens que nunca tinham visto a luz do dia, testemunhos, cartas trocadas com amigos íntimos. Penso que é o tipo de filme que pode converter pessoas como eu, aproveitem para ir ver, deixo-vos aqui neste link a minha visão sobre ele na Rua de Baixo.



domingo, abril 08, 2018

Chavela sempre única

É inegável o papel de Chavela Vargas não só na música como na sociedade mexicana ao longo de muitas décadas. A sua vida foi tão apaixonante quanto trágica e fascinante, criando um espaço para si que não existia para muita gente ou talvez não existisse para mais nenhuma mulher no México. Embora relegada para actuar em espaços pequenos e marginais, o México acolheu Chavela, que havia nascido mal amada na Costa Rica, e ela carregou-o consigo para todo o lado, inclusive no seu coração quando morreu, segundo se diz.

O documentário sobre a sua vida está no cinema desde dia 5 deste mês e tem como ponto de partida um conjunto de imagens captadas por uma das realizadoras no início dos anos 90, uma entrevista a Chavela que deu origem ao documentário, mais completo e com entrevistas às pessoas que lhe foram mais próximas. Deixo-vos aqui o texto que escrevi sobre ele na Rua de Baixo, podem clicar neste link.

quarta-feira, abril 04, 2018

O princípio de uma bela amizade

Sempre me admirei muito com as frases que declaram o fim de qualquer coisa embora possa, noutras fases mais tenras da vida, incorrido em ideias desse tipo. Hoje faz-me confusão como se pode declarar que, por exemplo, o rock morreu ou, como vi na notícia que me levou a este post, que se acabou o estado de graça do governo na área da cultura.

No fundo, tendencialmente somos radicais nas nossas posições já que a partir do momento em que um grupo ou uma parte mostra o seu desagrado face a uma ideia ou situação e a outra parte concretiza mudanças, no fundo não há um fim de nada mas uma adaptação saudável à discussão da nossa realidade social. Não estou a defender nem a acusar ninguém nesta publicação mas na sequência da situação do subfinanciamento da área da cultura por parte do Estado, o suplemento Ípsilon (do Público) declarava online que tinha acabado o estado de graça do governo naquela área. No entanto, é preciso admitir que existem ou existiram estados de graça; pode, eventualmente, ter existido uma desejada ilusão de que tudo ia ser perfeito e diametralmente oposto ao que se tinha passado na realidade social e política anterior mas admitir um estado de graça é admitir que se acredita cegamente naquilo que nos é posto à frente.

Apesar dos muitos erros e defeitos desta governação, não nos esqueçamos que a nossa vida do dia-a-dia é feita de cedências, acordos, partilhas e outras coisas mais. Este governo, não sendo de coligação mas de aceitação, é um bom exemplo de como na política essa convivência baseada em acordos aparentemente volúveis podem resultar bem. Não significa, contudo, que resultar bem seja que tudo seja sempre linear, maravilhoso e cor-de-rosa, na vida real quando as situações não são assim e, querendo fazer mudanças, fazem-se mudanças e adaptações a novas realidades. Isso é um sinal muito saudável de sociabilidade e vejo-o não como um fim de qualquer coisa mas o princípio de outras, diferentes.

quarta-feira, março 28, 2018

A crítica de cinema ou os gostos em cinema e na vida

Há uns anos atrás, tinha começado a escrever para um site de cinema que penso que já não existe, o Mundo do Cinema, e a ideia de ser crítico de cinema era uma coisa que me atraía. A coisa acabou por não correr como esperava e saí do projecto, ainda fiz alguns textos num blogue que criei para falar sobre os filmes de que gostava mais e depois fui largando a ideia porque não tinha capacidade para escrever criativamente. Se fosse uma escritora, poder-se-ia dizer que tive um bloqueio criativo de vários anos que contaminou muita da minha vivacidade intelectual, das minhas ideias.

Na altura, tinha ideias fixas acerca das coisas (ainda tinha algumas) mas entre aquele período e o agora passaram-se cerca 6 anos e de repente, quando comecei agora a escrever algumas linhas na Rua de Baixo, percebi que a minha ideia sobre aquilo que se costuma chamar crítica é um universo muito pessoal. Aquilo que me parecia ser uma verdadeira autoridade em que alguém lança um texto numa revista ou jornal e condiciona as opiniões de outros, deixou de me parecer algo que pudesse ser definitivo ou definido, mesmo que quem escreva o texto seja considerado no meio.

Por isso, quando escrevo sobre um determinado assunto (que costuma coincidir com cinema ou música e pouco mais) parece-me que posso apenas dizer o que me apaixonou ou o que me desgostou num determinado objecto, não conseguindo dizer a alguém que tenha achado precisamente o oposto de mim que está errado. Ambos estamos certos em perspectivas diferentes, daí achar que falar-se de crítica hoje é uma coisa muito antiga e, claro, não estou aqui a estudar a etimologia da palavra, não tenho conhecimentos para isso. Apenas sinto que as ideias definitivas têm cada vez menos cabimento, interesse ou lugar num mundo de fronteiras difusas (lembro-me muitas vezes daquele sentimento descrito pela personagem da Lila na Amiga Genial, quando as suas fronteiras se misturavam com o mundo).

Assim, deixo-vos aqui hoje o texto que escrevi para a Rua de Baixo sobre um filme chamado O Capitão, que estreou na passada quinta-feira (22 de Março) e que aconselho bastante a ver (podem clicar neste link para aceder). A par do Florida Project, do Annihilation e do LadyBird, é das coisas que mais adorei ver no que ao cinema diz respeito nos últimos meses.